Quando o seu organismo é seu próprio inimigo

Quando o seu organismo é seu próprio inimigo

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Lúpus, Artrite Reumatoide e Tireoidite de Hashimoto são doenças que atingem com mais frequência o público feminino, mas poucas mulheres têm conhecimento que essas doenças pertencem a um grupo clinicamente denominado de doenças autoimunes. O nome “resume” doenças em que o sistema imunológico afeta o organismo do próprio paciente. Mas o grupo abrange outras enfermidades, ainda desconhecidas da maioria, que podem afetar profundamente a saúde do paciente, caso não seja tratada corretamente. Por isso é tão importante ficar atenta quando o corpo dá sinais que não está bem e procurar um profissional da saúde para diagnóstico e tratamento corretos. Por Julyana Silveira

A designer de moda, Paloma Weyne de Araújo, 35 anos, passou cerca de dois anos com sintomas até procurar um médico. Os sinais de que sua saúde não estava bem começaram com gripes frequentes e dores no corpo. O alerta para a possibilidade de estar acometida por doença autoimune veio de uma amiga, que achou que os sintomas frequentes demonstravam que o seu sistema imunológico já não funcionava como deveria. Os sintomas começaram a se agravar e passaram de gripes e dores no corpo a afetar também seu psicológico. Mas só um profissional pôde perceber o que de fato os sintomas queriam dizer sobre a saúde de Paloma.

“Em 2014, passei a sentir sintomas como se fossem de estresse: palpitações, ansiedade, irritabilidade, dores nas articulações e depressão. Quando fui ao médico, um clínico geral, ele desconfiou que eu tinha Lúpus, porque o meu rosto estava muito avermelhado e estou tendo grande quantidade de queda de cabelo, que eu atribuía à rotina e às tarefas diárias. Quanto a pele do meu rosto, eu estava fazendo tratamento para rosácea há dois anos e não havia nenhuma melhora, pelo contrário, meu rosto estava cada vez mais vermelho, a pele mais espessa e nascendo pústulas, que eu achava que eram espinhas”, lembra a designer de moda.

Em janeiro deste ano, ela foi diagnosticada como portadora de alguma doença autoimune, que deu positivo para o diagnóstico. “A doença autoimune consiste em uma condição em que o sistema imunológico do indivíduo agride as suas próprias células e tecidos, causando inflamação em diferentes partes do organismo. Muito comumente, há produção de anticorpos específicos, chamados de autoanticorpos”, explica a reumatologista Kirla Poti.

A partir da confirmação, Paloma Weyne foi orientada pelo clínico geral, a procurar um médico reumatologista, que pediu exames complementares para determinar qual das doenças tinha acometido a saúde dela. “Ele fez exames clínicos e laboratoriais, além de precisar de informações do meu histórico de saúde para conseguir identificar qual doença autoimune sou portadora, pois o diagnóstico não é simples”, reforça. Tanto não é simples que a designer de moda ainda não teve identificação de qual doença autoimune é portadora. “Nenhum exame foi conclusivo. O próximo passo é fazer uma biópsia da pele do rosto para tentarmos identificar entre essas três: Lúpus Eritematoso Sistêmico, Esclerodermia ou Doença Mista do tecido conjuntivo”, explica Paloma.

Além do Lúpus Eritematoso Sistêmico, da Esclerodermia e da Doença Mista do Tecido Conjuntivo, também são consideradas doenças autoimunes a Artrite Reumatoide, Espondilite Anquilosante, Síndrome de Sjögren, Esclerodermia, Tireoidite de Hashimoto, Doença de Graves, Esclerose Múltipla, Miastenia Gravis, Psoríase, Vitiligo, Diabetes Mellitus tipo 1, Doença Celíaca, Púrpura Trombocitopênica Imune e Anemia Hemolítica Autoimune. “São patologias reumatológicas e bem mais comuns ao público feminino”, relata a médica. Independente do diagnóstico, a pergunta mais frequente entre os pacientes é porque o sistema imunológico passa a se defender do próprio organismo, o que segundo a médica especialista, não existe ameaça do indivíduo contra ele mesmo. “O que ocorre é o modo de funcionamento do sistema imunológico: existe uma quebra da 'auto-tolerância', ou seja, as células imunológicas reconhecem certas células próprias como estranhas, resultando numa resposta inflamatória persistente”, explica Dra. Kirla Poti. Mas apesar de não existir ameaça do indivíduo contra ele, existe risco de morte em algumas condições específicas. “Mas na grande maioria das vezes o tratamento adequado contorna essa situação extrema”, completa a especialista.

Assim como o grupo é composto por diversas doenças, cada uma pode apresentar sintomas específicos, como na Artrite Reumatoide, por exemplo, onde as articulações são acometidas, causando dor e inchaço articular. “A manifestação depende do sítio inflamado. O vitiligo causa manchas brancas na pele. O Lúpus, afeta diferentes partes do corpo, podendo cursar com lesões na pele, dor e inchaço articular, problemas renais, pulmonares e cardíacos”, destaca a reumatologista. E cada uma delas requer tratamentos específicos. Não é só o relato da médica Kirla Poti que reforça a importância de se buscar um profissional, quando é perceptível que o organismo não está funcionando saudavelmente. Para a paciente Paloma Weyne, está sendo essencial o acompanhamento de um especialista em doença autoimune. Ela não só sofria com os sintomas, como eles influenciavam diretamente no seu dia a dia. “Enquanto eu não descobria que tinha uma doença autoimune e antes de tomar a medicação, a doença me afetava muito. Perdi vários dias de trabalho com dores articulares e na cabeça. Na vida pessoal, prejudica bastante, porque eu ficava muito nervosa e irritada dentro de casa e em muitos dias eu não tinha disposição para organizar a casa, sair com meus filhos ou com os amigos”, relata.

Apesar do diagnóstico de Paloma ainda não ser conclusivo, a medicação, bem como as orientações do médico, têm sido decisivas para a melhoria na qualidade de vida da paciente. “Estou tomando uma medicação para fortalecer o sistema imunológico e antidepressivo. Estou terminantemente proibida de pegar sol, entrar em carro ou local quente, porque o médico disse que agrava meu quadro. Quando, finalmente, conseguirmos diagnosticar qual delas eu tenho, vou começar o tratamento específico”, comemora Paloma Weyne.

Por isso, sempre que sentir que há algo de errado com o corpo procure a ajuda de um profissional. “Pode ser manchas, dor articular, febre, perda de peso, falta de ar, tremores, anemia, dentre outros vários sintomas. Na maioria das vezes, um clínico geral pode orientar qual médico especialista deve ser procurado”, conclui a reumatologista.

O que provoca as doenças autoimunes? - Ainda se desconhece o motivo por que o sistema imunitário se confunde. No entanto, há diversos fatores que podem influenciar o desenvolvimento de uma doença autoimune. Por exemplo, a predisposição genética é obrigatória.

- Embora as doenças autoimunes não sejam doenças genéticas, uma predisposição genética é essencial para o desenvolvimento das mesmas. Isto significa que determinadas combinações de genes levam a um risco mais elevado de desenvolvimento de uma doença autoimune do que a outras.

- Além da predisposição genética, são também necessários fatores ambientais diferentes. São eles os estímulos para “ligar” finalmente o sistema imunitário.

- As infecções, vacinas, alterações hormonais, fumo ou deficiências nutricionais, entre outros, são considerados fatores ambientais que podem provocar uma reação autoimune.